Bikemania Famalicão até Santiago de Compostela

Crónica de uma viagem de bicicleta de Vila Nova de Famalicão até Santiago de Compostela percorrendo o Caminho Central Português até à capital da Galiza – um dos destinos mais importantes de peregrinação cristã.

Dia 1 – Famalicão – Tui

Há uma repetição frequente nesta aventura: uma saída matutina a cada manhã! Saímos pelas 6h45 da Câmara Municipal de Famalicão de frontais ligados e numa animação atípica para quem acorda tão cedo.

Cordialmente, o Manuel Lima da Caixa de Imagens registou aquela que foi a primeira saída da Bikemania Famalicão para percorrer o Caminho Central Português em direção a Santiago de Compostela.

Seguimos pela nossa ciclovia até à EN 204 que nos conduziu com temperaturas baixas até Barcelos onde avistamos o primeiro sinal do caminho na ponte medieval sobre o Rio Cávado. Na cidade do Galo paramos no centro e recebemos o segundo carimbo na credencial na Pastelaria Arantes junto ao Campo da Feira onde bebemos o café da manhã.

Há pegadas de Santiago de Compostela em Barcelos e há ruas inspiradas nesta monumental peregrinação cristã: “Rua dos Caminheiros de Santiago” ou “Rua Caminho de Santiago” são alguns exemplos. Aos 28 quilómetros temos a primeira subida vigorosa do dia que terminou junto do Albergue de Peregrinos A Recoleta em Tamel (São Pedro Fins). O albergue estava fechado à hora da nossa passagem pelo que seguimos viagem até Balugães.

Paramos para uma fotografia de grupo na ponte romana que nos permite atravessar o Rio Neiva. Esta primeira parte do percurso é conhecida para a maior parte dos elementos. Outrora percorremos este trajeto até Ponte de Lima. Por isso, sem mais demoras chegamos à vila portuguesa por um trajeto em terra junto ao Rio Lima. No plano para este primeiro dia constavam 98 quilómetros e a colossal subida à Labruja. Por isso, organizamos um almoço coletivo proporcionado pelas nossas meninas que acudiram ao coração do Minho para nos dar uma excelente refeição. Não fizemos deste caminho uma corrida, muito pelo contrário, mas neste primeiro dia o número de quilómetros era um desafio para uma boa parte dos 25 elementos.

Seguimos as setas atravessando a ponte romana. Paramos junto do albergue da Casa do Arnado e cumprimentamos os primeiros peregrinos a pé que esperavam a hora de abertura. Seguimos logo por algumas azinhagas, enquanto alguns aguardavam a tão esperada Labruja. Por baixo dos viadutos da A3 não há volta a dar. Vamos subir! Aos poucos e a subir abandonamos o concelho de Ponte de Lima. Na subida um pequeno grupo decide seguir pela estrada enquanto a maior parte deseja conhecer ou rever a Cruz dos Franceses (ou Cruz dos Mortos como também é conhecida). No topo da Portela Grande os primeiros a chegar avisam-nos que há água fresca junto da antiga Casa do Guarda da Serra da Labruja. Conversamos alargadamente com alguns elementos do ICNF que ali se encontravam a vigiar, enquanto bebemos água, e mais água… Se a subida ao pico da Serra da Labruja não é fácil, a descida também não! Que o diga a nossa querida colega que nos primeiros metros da descida caiu! Salva pelo capacete foram precisos vários minutos para regressarmos ao trilho…

A descida para Rubiães foi feita de forma cautelosa até ao Café São Sebastião aberto ao lado do albergue desta localidade. Paramos para uma cerveja e alguns minutos de conversa, afinal são estes os detalhes mais importantes do nosso caminho. Seguimos então até ao alto de São Bento na estrada que segue para Paredes de Coura. Daqui será sempre a descer até Valença. Aproveitamos o trilho. Algumas vezes sinuoso, mas sempre ciclável. Cruzamos a Quinta Estrada Romana – um local onde já pernoitamos em caminhos anteriores e seguimos para a cidade mais a norte de Portugal deste primeiro dia.

Mergulhamos na Praça-forte de Valença, uma fortaleza seiscentista, Património Nacional, com centenas de anos de história. E dissemos um até já a Portugal pela Ponte Internacional sobre o rio Minho. Para o final do dia estavam reservados dois quilómetros de subida até ao Hotel Cruceiro do Monte que fica na PO-340 estrada que liga Tui a Baiona. No final brindamos com Vinho do Porto à primeira etapa deste nosso caminho.

Dia 2 – Tui – Caldas de Reis

Manhã vespertina. Um frio de rachar em simultâneo com a descida até ao centro da cidade de Tui. Esta subida pelo centro histórico é fantástica! Acompanhada naturalmente pela medieval Catedral de Tui onde paramos para uma fotografia de grupo. Fazemos agora o trajeto junto ao Rio Louro e mais à frente no Rio Sant Simón.

Quem já tinha outrora feito o caminho apercebeu-se que desta vez não cruzamos o Polígno Industrial naquela gigante reta sem fim que tanto atordoa os peregrinos que seguem a pé. A chegada a Porriño faz-se calmamente sem grandes declives. À chegada o grupo parte-se em dois por causa das marcações confusas. Uma manda-nos pular a linha de comboio e seguir pelo centro da cidade. A outra faz o caminho junto ao rio em direção ao Albergue de Peregrinos de Porriño. Encontramo-nos mais à frente… E seguimos! O tempo seguia acinzentado e os avisos meteorológicos ameaçam a cada instante, por isso seguimos sem grandes paragens até ao início da subida do dia!

Em Mós inicia-se uma ascensão acentuada e o carimbo n’O Alpendre anuncia que estamos próximos de a iniciar. Ainda que seja em alcatrão e cimento, o declive está lá todo durante vários minutos. De Porriño a Redondela distam cerca de 15 quilómetros, pelo que rapidamente percebemos que estaríamos a chegar. O plano era uma pausa para almoço, mas a chuva tinha parado neste momento e decidimos continuar a nossa viagem, uma vez que este primeiro segmento do dia estava a sair lentamente. Não fosse esta parte a mais dura deste caminho em terreno galego. Seguimos em direção a Pontevedra por mais 18 quilómetros que na melhor das hipóteses atrasou o almoço por mais duas horas!

Passamos por Arcade – a terra das melhores ostras galegas e depois de atravessarmos a ponte romana de Ponte Sampaio subimos pela zona antiga desta pequena localidade. Engane-se quem acha que o percurso ficou melhor! Uma zona de empedrado de várias centenas de metros atrasa-nos vários minutos e os peregrinos a pé brincam connosco a cada passagem que fazem.

A chegada a Pontevedra faz-se agora por um novo trilho! Felizmente a nossa escolha leva-nos por um fantástico bosque com um trilho divertido e ciclável, aos S’s e com algumas raízes. Na cidade descansamos e almoçamos no centro histórico junto das setas amarelas que ditam o nosso destino.

Daqui a Caldas de Reis, o destino final deste segundo dia, são pouco mais de 20 quilómetros. Nesta parte circula-se entre o alcatrão e os estradões de terra batida. A maior subida desta parte aparece logo após passarmos por cima da linha de comboio (numa passagem de nível sem guarda) até San Amaro onde um grupo de cinco decide parar para uma cerveja num café da localidade. Com uma grande distância para o grupo da frente decidimos percorrer esta parte do percurso com uma maior velocidade. Ao cruzarmos a N550, cruzamos a estrada e fomos até ao Parque do Rio Barosa a um quilómetro onde decorria um casamento e nos impossibilitou de vermos as cascatas. Rapidamente voltamos ao caminho. Passamos Briallos onde tem um albergue publico e chegamos ao Hotel O Cruceiro onde ficamos hospedados.

Caldas de Reis é uma vila termal que é atravessada pelo Caminho Português dos Caminhos de Santiago. Além disso encontra-se num dos principais eixos rodoviários da Galiza sendo atravessada pela N-550 que liga Vigo à Corunha. Após uma boa receção no hotel acabamos por dar um pequeno passeio na vila e conversar um pouco sobre a experiência com as pernas mergulhadas num tanque termal ali existente a poucos metros do hotel. Depois do jantar a maior parte do grupo aceitou o convite e passou pelo O Muiño para uns chupitos. Enquanto a noite acabou para uns no descanso dos quartos, para outros continuou numa amena cavaqueira no tanque termal.

Dia 3 – Caldas de Reis – Santiago de Compostela

Domingo. O dia amanheceu enquanto tomamos o pequeno almoço no hotel. Estávamos a pouco mais de 40 quilómetros de Santiago de Compostela, por isso a saída foi significativamente atrasada. Saímos de Caldas de Reis num pelotão maior que o da volta a Portugal em conjunto com outros betetistas que no dia anterior ficaram na dianteira.

O percurso de Caldas de Reis até Valga é dos mais bonitos em todo o caminho na parte galega. O bosque e o colorido do verão para o outono abrilhantam a nossa passagem e já só pensa em chegar a Santiago. Cruzamos o Rio Ulla em Pontecesures e pelas margens do Sar chegamos a Padrón. Domingo é dia de Mercado de Padrón (Feira de Padron) na Praza de Abastos e a confusão é de tal ordem que só conseguimos passar o mercado com a bicicleta à mão! Este é um dos maiores mercados tradicionais da Galiza. Há lugar para a venda de tudo! Hortaliça, fruta, peixe, mariscos, roupa e naturalmente os pimentos padron típicos desta região. Mergulhamos pelo meio das barracas de alimentação orientados pelos cheiros de pulpo a la gallega ou do pollo asado. Não há margem para parar aqui.

Paramos mais à frente para um chupito e saudarmos o caloroso Pepe de Padrón no seu simpático estabelecimento. Um dorsal já fica aqui no meio de tantas outras recordações que este local guarda de milhares de peregrinos que aqui param para um copo de vinho ou um carimbo.

O caminho segue agora por pequenas localidades rurais enquanto cruza meia dúzia de vezes a N550 até chegarmos a O Milladoiro. Santiago é já ali pedalamos pela alternativa à subida do hospital e entramos na cidade pela Avenida de Rosalía de Castro que nos conduziu ao cruzamento do Parque da Alameda e à zona histórica que por ser domingo estava entupida de turistas e peregrinos.

Chegamos, chegamos!
À Catedral de Santiago de Compostela depois de três dias vividos em cooperação, amizade e determinação.

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