Mountain Quest 2017

Esperávamos ansiosamente pelo fim de semana do Mountain Quest 2017. Nas semanas que antecederam o evento, cada um à sua maneira, preparou a bicicleta e o restante material para embarcar nesta aventura. Chegamos a Amarante e rapidamente levantamos o kit de atleta, jantamos e assistimos ao briefing.

O diretor de prova anteviu de forma séria, mas descontraída, aquilo em que se traduzem os 180 quilómetros com 6000 metros de acumulado positivo. “Respeitem a montanha” referiu num português-hispânico divertido de se ouvir. Naquela sala estavam presentes dezenas de atletas. Alguns com uma experiência imensa em ultramaratonas assentavam ideias para tentar concluir o Mutant Quest que somava 70 ao percurso de 180 quilómetros. Os menos inexperientes, como nós, focavam-se num plano pouco definido para chegar ao fim.

Preparamos o material para o dia seguinte e entregamos as bicicletas no bikepark enquanto os nossos corpos descansariam no ‘chão duro’ do pavilhão da cidade. Previmos uma noite difícil. Barulho, ruídos vários e ansiedade. Alguns dormitaram durante duas ou três horas até os despertadores tocarem próximo das 3 horas e 30 minutos da madrugada. A expectativa estava alta! Tomamos o pequeno almoço preparado especialmente para o efeito e fomos em direção ao centro e Amarante onde arrancaríamos às 5 horas e 10 minutos.

 

A partida de uma aventura chamada Mountain Quest

Sinto-me numa meia maratona de BTT, pensei. A velocidade imposta pelos é atletas é de tal ordem que rapidamente os da linha da frente nos fogem no primeiro quilómetro. Damos uma volta de dois quilómetros e saímos de Amarante em direção ao concelho de Baião.

Se estava uma noite fria, neste arranque tivemos os primeiros motivos para a retirar em força. Nesta primeira fase somos levados por estradas secundárias seguradas pelas forças policiais em todos os cruzamentos. A subida para a Aboboreira acabou por aparecer e com ela os primeiros gritos de esforço. Já com as luzes desligadas e um nevoeiro abundante, subimos em direção a uma pequena aldeia, numa cota já considerável. Abastecemos água, agrupamos e seguimos confortavelmente. Duas horas passadas e tínhamos atingido o ponto mais alto da Serra da Aboboreira, enquanto reconhecemos alguns locais onde pedalamos anteriormente nos Epic GPS / NGPS realizados nesta zona. Dou muito valor à geografia e às gentes. Leio as placas informativas das aldeias que passamos agora para tentar perceber onde estou.

Na primeira descida técnica do dia estranho estar na frente sozinho. Paro. Avisam-me uns participantes que os meus companheiros ficaram atrás com um furo. Deu tempo para comer uns frutos secos e observar o gráfico de acumulado que teria pela frente e adivinhar o que vinha a seguir. Nesta fase circulamos com mais dois colegas de Famalicão e o grupo totaliza sete elementos. O serrote que tenho no autocolante presente no quadro assusta-me. Temo que este ritmo já lento, se torne ainda mais vagaroso, apesar de me sentir bastante confortável a pedalar a este compasso.

 

Não faço a mínima da ideia de onde estou!

O percurso é percorrido maioritariamente entre serras, vales e trilhos florestais. Alguns (quase) impossíveis de subir como de descer. Atingimos mais um topo com cerca de 1200 D+. Estávamos famintos por chegar a Mafómedes. Uma minúscula aldeia do concelho de Baião envolta de montanhas verdejantes e intocáveis.

O autocolante que levamos colado no quadro diz-nos que aqui teremos um estabelecimento aberto para comer. Mas, a Tasca do Valado estava fechada e o reforço foi mesmo solucionado interinamente ali no meio da rua ao lado de um ponto de água. A próxima subida seria o cabo dos tormentos, pensei.

O gráfico de altimetria do GPS é impossível de visualizar na forma completa. É gigante. Na aldeia somos atrasados por uma centena de cabras que são fielmente conduzidas pelo seu pastor que nos avisa “vão ter muito para subir”. Seguimos um monumental estradão em terra, curva após curta, sem fim à vista. Começamos a ficar com uma certa distância entre os primeiros e os últimos do grupo. “Ainda sobe mais ai para cima” diz um simpática fotógrafa que espera pelos atletas a conta gotas. No topo de uma das maiores vistas que tivemos nesta aventura, e já sem nevoeiro, não avistamos nenhuma população.

Geograficamente continuamos sem saber onde estamos. Pouco importa. Enquanto uns decidem esperar pelo último, outros seguem devagar pela descida longa, esburacada e empedrada que temos pela frente. Já com o grupo compacto cruzo um campo de futebol inerte no topo de uma aldeia que reconheço de imediato. Estou em Cidadelhe (Mesão Frio). A próxima paragem mais longa estava marcada para Ferraria em Sedielos (Peso da Régua). Circulamos sozinhos. Não avistamos ninguém faz quilómetros. E se estivermos em último essa será a última das nossas preocupações, pensamos.

Paramos em Ferraria no pequeno café do lugar para comer qualquer coisa. A simpática senhora do estabelecimento diz-nos que já passaram uns 300 por aqui. Enquanto uns jovens no exterior dizem que agora é que vamos subir. Em direção à Senhora da Serra onde mais logo há uma festa popular onde vão estar.

 

O Muro da Ferraria é um muro.

Nem fiz muitas cerimónias. Mandei-me abaixo da bicicleta, apertei o travão da frente e subi metro após metro. Este pedaço ingreme de alcatrão não merece o meu esforço. No fim da subida um tanque onde o Lino mergulha as duas pernas…. Demoramos mais de 6 horas para percorrer 50 quilómetros!

É visível a nossa preocupação em chegar ao fim dentro do tempo limite. Temos uma das piores subidas para percorrer até chegar ao alto da Senhora da Serra. Chegamos ao topo com os 1400 D+ com quase 10 horas passadas e pouco mais de 75 quilómetros. No local uma azáfama enorme por causa das festas que se realizam neste local. Segundo dizem, a Senhora da Serra é a romaria mais alta de Portugal e acontece todos os anos no segundo domingo a seguir ao São Pedro.

Bebemos uma Coca-cola quente e descemos em direção a Vila Real. Havíamos sido avisados do perigo do rockgarden pelo que a descida foi feita com precaução. Nesta fase já tínhamos deixado um colega para trás que preferiu não seguir após a Senhora da Serra, pelo que o grupo agora era de 6, partido na maior parte das vezes em três. Quando olho para o relógio, acelero. Falta-me água e começo a ver alguma dificuldade em chegar ao fim a este ritmo. Quero chegar. Quero chegar dentro do tempo regulamentar. E os reagrupamentos são cada vez mais frequentes…. Entretanto, troco algumas impressões com meia dúzia de espanhóis que estão a participar. O grupo deles também anda partido.

 

A subida para o Alvão

Com o tempo entramos no Parque Natural do Alvão, conhecido pela Cascata de Fisgas do Ermelo no concelho de Mondim de Basto. Eu e o Gramaxo seguimos o percurso e decidimos aproveitar para andar mais rápido um pouco. Estou exausto! De estar tantas horas a pedalar e de saber que ainda me faltam tantos quilómetros para terminar. Mais à frente telefonamos ao restante grupo e avisamos que vamos seguir sem agrupar. Paramos para juntar água ao Nestum com proteína de chocolate e bebemos o batido para atacar o que faltava da subida para o Alvão.

Um Lisboeta que, entretanto, se cruza connosco está otimista. “Vamos chegar a Amarante a horas” diz-nos. Entretanto, passamos a tenda da organização que nos indica a Cabana do Alvão para a esquerda e o percurso para a direita. Seguimos estrada fora à mais rápida velocidade que conseguimos. Ao nosso lado esquerdo temos a Albufeira da Barragem Cimeira, enquanto percorremos uma estrada municipal até Lamas de Olo. Cumprimentamos os pastores que na berma da estrada que nos olhavam, enquanto a vida lhes passava. Cruzamos mais algumas aldeias de dimensão reduzida e pouco habitadas. Até mergulharmos outra vez por caminhos florestais em direção ao Monte Farinha onde no seu alto encontramos o Santuário de Nossa Senhora da Graça.

Apesar do cansaço, estou a adorar esta fase do percurso. Plano e com ligeiras acentuações. Estamos a cerca de 1 quilómetro da Senhora da Graça e a luz do dia começa a desaparecer. Temos cerca de 130 quilómetros percorridos e pouco menos de 40 para terminar. Nesta fase o estômago rejeita quase todo o tipo de alimentação que ingerimos. Está cansado, como nós. Subimos até ao alto da Senhora da Graça e damos a volta à igreja. Tiramos uma fotografia de prova que lá subimos e paramos no café do alto. “Um pão com presunto e duas Coca-cola”, pedimos e partilhamos. No interior um grupo de quatro ou cinco atletas comia sopa quente tranquilamente e davam-nos uma boa novidade: “até Amarante agora é sempre a descer e plano, chegamos lá num instante”.

 

Chegamos todos ao fim!

E assim foi, descemos aquela serpente de estrada conhecida por receber uma etapa da Volta a Portugal em Bicicleta. Voltamos a subir para uma zona florestal, mas nada comparado com o que percorremos até aqui. Daqui até Amarante foi sempre um bónus. De luzes frontais ligadas percorremos ao maior ritmo que conseguimos um estradão em terra batida que nos levou até bem próximo da cidade. Chegamos! Dentro do tempo como desejávamos. E vivemos mais uma colossal aventura. Os nossos restantes colegas também chegaram. Umas dezenas de minutos depois, mas chegaram! E isso foi desde o início o mais importante.

Em relação ao evento em particular é uma aventura imensa. O percurso percorre locais invulgares com vistas fantásticas. Mas é duro. Muito. E só deve ser realizado por gente fisicamente capaz ou com uma boa capacidade de superação (como a nossa).

Crónica e fotografia por: Edgar Costa

One thought on “Mountain Quest 2017

  • 7 de Agosto de 2017 at 22:18
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    Palavras para quê, está tudo dito… o pormenor desta crónica recordou-me alguns pormenores que na hora me passaram ao lado ou nem valorizei!

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