GPS EPIC 2018 – Oliveira do Hospital

Com o mote de “Renascer” a segunda edição do GPS Epic Series de 2018 foi como sempre, épica, terminando, desta vez, antes do final do track!. Esta é a crónica de uma aventura muito bem vivida entre Oliveira do Hospital e Piodão.

Com a saída apontada para o final da madrugada de sexta-feira para sábado, às 5 horas da manhã já estávamos prontos para seguir de Famalicão até Oliveira do Hospital, uma cidade do distrito de Coimbra localizada na Beira Alta.

O entusiasmo estava em cima! Mesmo com as previsões atmosféricas que o rádio alertava durante a nossa viagem. “É só no litoral”, comentávamos após mais um aviso da telefonia, seguido de uma imparável chuva sobre o nosso carro.

Chegamos a Oliveira do Hospital tão cedo que o secretariado ainda estava fechado. Tomamos o primeiro café da manhã e preparamos as bicicletas e o restante equipamento. Num instante estávamos prontos para seguir o track. Dois quilómetros à frente reparamos que um de nós não traz o bidão de água. Paciência! Dividiremos a água entre todos e não perdemos mais tempo…

Não tardaram muitos minutos até sermos saudados pela primeira tempestade de chuva, que nos fez imediatamente esquecer a necessidade beber (água) pelo o caminho.

É a primeira vez que estamos nesta zona do país depois dos grandes incêndios de 2017. Contudo, qualquer imagem que podíamos imaginar ficava longe daquilo que vimos na encosta que descemos antes de atravessarmos o Rio Alva. Uma mancha completamente negra e um micro cheiro a queimado, mesmo depois de tantos meses… Estes quatro quilómetros que descemos faz a delicia de qualquer mountain biker. Um estradão largo com formato de slalom que só acabou junto a uma estrada municipal.

Seguimos o percurso, agora numa versão ascendente, cruzando duas unidades de camping de São Gião a última freguesia de Oliveira de Hospital em direção ao concelho de Seia. Atravessamos a localidade em subida até aos 16 quilómetros onde paramos num pequeno abastecimento debaixo de uma chuva quase insuportável. Aqui era a divisão do percurso dos 90 e 80 quilómetros. A organização prometeu-nos neve e como tal decidimos unanimemente seguir em direção à Serra do Açor.

Temos 20 quilómetros e atingimos o ponto mais alto até agora: 900 metros. O vento sopra de forma infernal nesta cordilheira que faz parte da Serra da Estrela – a maior zona montanhosa de Portugal. Olhamos para as mãos e reparamos que as pequenas partículas brancas que temos nas luvas são neve. Seguimos a viagem para evitar mais frio, enquanto o track nos obriga a descer sob uma linha que separa o distrito de Coimbra do da Guarda.

Decidimos parar em Casal do Rei, uma aldeia da freguesia de Vide do distrito de Seia, para comermos alguma coisa e secarmos um pouco as luvas que pingavam água gelada. Daqui seguimos até à povoação de Muro onde descemos entre escadas de xisto para cruzamos a Ribeira de Alvôco e seguimos no seu leito até ao Poço da Broca – a próxima paragem desta aventura.

 

Poço da Broca um paraíso desconhecido

O lugar de Poço da Broca está localizado na Aldeia de Barriosa (Vide) e é conhecido por ser um local de beleza inigualável nesta região. De perto, pudemos ver a Cascata do Poço da Broca a cair para a Ribeira de Alvôco.

Nas margens situa-se o Restaurante Guarda Rios (nome de uma ave) e uma praia fluvial que naturalmente não aproveitamos.

Neste local, pudemos, uma vez mais, comer qualquer coisa no reforço e trocar algumas impressões com elementos da organização que nos indicaram que a partir daqui estavam reservadas as maiores dificuldades do dia.

Seguimos a nossa viagem e com ela o primeiro atraso forçado do dia. A corrente de um dos nossos companheiros partiu e com isso necessitamos de vários minutos para a sua reparação. Mais à frente somos surpreendidos com mais uma dificuldade mecânica, desta vez de um colega que empenou por completo a roda dianteira.

As dificuldades acabaram por aparecer. Depois de sairmos da N230 (estrada nacional que liga Aveiro à Covilhã) iniciamos uma monumental subida para a aldeia de Baiol prosseguida de 10 quilómetros em ascendente. A contabilidade neste caso é fácil de explicar. Chegamos a este ponto com 32 quilómetros e estávamos a uma altitude de 275 metros. O objetivo seguinte seria percorrer 10 quilómetros e atingir uma quota de 1335 metros.

Atingimos uma zona eólica, mas o vento torna impossível a nossa paragem. Acabamos por atrasar sistematicamente um novo reforço e com isso ameaçávamos a nossa fadiga e a falta de nutrição. Acabo por seguir na frente um pouco mais isolado enquanto o vento me empurra pela esquerda, pela direita e pelas costas. Como um pão com queijo e marmelada enquanto espero pelos restantes companheiros. Começo a compreender as dificuldades que a organização avisara no Guia do Participante.

As montanhas são sempre soberanas nem que seja pela altitude, mas aqui juntamos o vento, o frio, a saraiva, a chuva e mais tarde a neve.

Acabamos por ter de percorrer vários metros com a bicicleta à mão! É inevitável, dado o empedrado escorregadio ou o vento frente diabólico.

A certa altura, já muito próximo do topo desta montanha, dão-me conta que quilómetros à frente a organização está a ter participantes em hipotermia e que o mais aceitável seria o nosso regresso no sentido contrário até encontrarmos o percurso dos 80 quilómetros que estaria logo ali atrás…

Confessei de imediato que a vontade era seguir em frente nem que fosse para ajudar eventualmente alguém em apuros. Seguimos em conjunto até atingirmos o pior planalto em que alguma vez pedalei. Um manto branco de neve em toda a extensão. Um nevoeiro serrado e um frio que subia até aos nossos pés. Nesta fase concentro toda a minha energia nas pernas e travo ligeiramente para nas descidas continuar a pedalar e gerar algum calor no corpo.

Iniciamos uma breve descida neste planalto infernal. A neve dá origem a gelo, enquanto a água salta de forma constante para as nossas pernas vermelhas do frio e desprotegidas da intempérie. Estamos gelados! O nevoeiro não nos dá possibilidade de olhar no horizonte ou simplesmente de olhar atrás e ver os dois colegas que nos faltam no grupo. “Um furo seria o azar do dia”, sussurrei baixinho. Encontramos mais à frente um todo-o-terreno com fotógrafos que nos indicam que devemos seguir em frente e ignorar a subida ao posto de vigia da Serra do Açor. “Está a ser uma aventura brutal”, pensei enquanto parava para esperar pelos colegas que estavam mais atrás. Daqui seguimos juntos até à aldeia de Piodão.

 

Um final chamado Piodão

Após o planalto de neve iniciamos uma descida cuidadosa até Piodão. Foram vários quilómetros em estradão nesta região que já pertence ao município de Arganil. Aqui a segurança prendeu-se essencialmente às mãos tão geladas que tinham dificuldade em travar a bicicleta a cada viragem.

Chegamos a Piodão completamente gelados, mas o ambiente vivido por muitos participantes nesta aldeia histórica da Serra do Açor é tão frio quanto o nosso corpo. Acabamos por tomar uma decisão sensata e terminar neste recanto tão belo a nossa aventura pelas beiras.

Ficamos mais de uma hora em Piodão aquecer com chã e a comer produtos da região. O regresso foi feito à boleia dos funcionários da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital que acudiram à região para apoiar a organização. A ambos o nosso muito obrigado.

Prometemos voltar. Cumprir o percurso na integra e desfrutar do melhor que esta região nos pode dar: acolhimento simpático e trilhos de cortar a respiração.

 

Informações do Percurso

Distância: 55 quilómetros
Acumulado: 2329 D+
Altitude Min.: 269 metros
Altitude Máx.: 1343 metros

Texto e fotografia por: Edgar Costa

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