Famalicão – Fátima pelos Caminhos de Santiago

A primeira aventura do ano com mais de 300 quilómetros levava-nos de Vila Nova de Famalicão a Fátima, pelo troço dos Caminhos para Santiago de Compostela. Quisemos cumprir, uma vez mais, as nossas regras: 1. Cada um saí de sua casa de bicicleta; 2. Viagem totalmente em autonomia; 3. Orientação pelas setas mesmo com os GPS que tínhamos disponíveis.

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Às 5h em ponto desperto. Ainda alguns notívagos voltavam da vida noturna quando me fiz à estrada N206 até Famalicão. À hora marcada (6h30) reunimos junto à Câmara Municipal para a fotografia da praxe e seguimos centro da cidade fora até à N14 (estrada que liga Braga ao Porto). Surpreendentemente a estrada estava com menos tráfego que o costume, pelo que fizemos o trajeto a uma boa velocidade sem qualquer atropelo. Para evitar a Via Norte a seguinte à cidade da Maia optamos por seguir por Leça do Balio e São Mamede de Infesta até ao Amial no Porto. Apesar dos incentivos que existem atualmente, ainda há muitos condutores que ignoram as bicicletas nas suas viagens, pelo que poupamos aqui uma via perigosa e seguimos por uma estrada recatada e menos ameaçadora.

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A chegada ao Porto, uma hora e pouco depois, fez-se com uma paragem na . Nessa ocasião abundavam os ciclistas no terreiro deste edifício de estrutura romano-gótica. A maioria ia para Santiago de Compostela. Nós apanhávamos o sentido contrário do Caminho e rumamos a sul.

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A primeira paragem para café fez-se depois da passagem no tabuleiro superior da Ponte D. Luís numa pequena pastelaria já do lado de Gaia. Nesta fase do percurso ainda estávamos com dificuldade em identificar as setas azuis. Reconhecemos que foram tantas as viagens pelas setas amarelas que o nosso cérebro não processava naturalmente esta nova cor iconográfica.

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Os próximos quilómetros foram na sua maior parte estrada, urbanos e nada interessantes. Só em Canelas (Gaia) encontramos a primeira parte do caminho útil a uma bicicleta de BTT. Um trilho de terra, com lama e água abundante.

Do concelho de Gaia corremos rapidamente até Santa Maria da Feira para uma nova pausa para café e encher os bidões. O São Pedro estava bastante amigável e a temperatura a meio da manhã era superior a 24º. Tínhamos planeado fazer cerca de 170 quilómetros neste primeiro dia, sendo que o objetivo era cumprir 70% até à hora de almoço que tardava em aparecer. Apesar das facilidades desta primeira etapa nem sempre foi possível impor um ritmo superior. Ou mudávamos de terreno, ou entravamos em zonas mais urbanas, que por si só, mais perigosas, e que nos impunham uma maior atenção e uma menor velocidade.

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Neste primeiro dia cruzamos várias zonas industriais, nomeadamente as de São João da Madeira, onde foi bem visível o império da indústria do calçado nesta região.

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Depois de Albergaria-a-velha, já só pensávamos na paragem para almoço. Sabíamos que à partida o ideal era sair um pouco antes de Águeda para a N1 para assim parar no MC Donalds que fica mesmo no inicio desta cidade do distrito de Aveiro.

De Águeda até a Anadia foram alguns quilómetros de luta, principalmente com a barriga cheia. Coimbra tardava a aparecer no destino. Pelo meio cruzamos a Mealhada, uma pequena cidade pertencente à sub-região da Beira Litoral, conhecida pela sua gastronomia como é exemplo o leitão assado. Daqui para a frente percorremos imensas zonas agrícolas até chegarmos à cidade dos estudantes.

A chegada a Coimbra foi feita junto ao Mondego pela zona da cidade próxima da estação de comboios “Coimbra-B”. Nesta fase estávamos bem fisicamente, mas acusávamos o desgaste de horas consecutivas a pedalar. Só queríamos encontrar o Hostel Serenata. No centro da cidade usamos o Google Maps para chegar rapidamente à Sé Velha, pelo meio atravessamos uma majestosa procissão e um mar de gente. No Serenata fomos muito bem recebidos. Guardamos as bicicletas na garagem e fomos para o quarto “Eça de Queirós” que seria ocupado só por nós nessa noite. As acomodações são bastante boas. WiFi gratuito, zona de bar e de sala de estar e quartos bastante espaçosos. Deixamos os equipamentos para lavar e secar na receção e sem perder muito tempo acedemos ao jantar mais cedo.

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O nosso anfitrião apareceu rapidamente à Universidade de Coimbra no seu táxi e levou-nos diretamente ao Safari – uma cervejaria tipicamente académica onde jantamos. Tivemos horas à mesa à conversa de bicicletas, de Famalicão e de Coimbra. Agradecemos a oferta do jantar (valeram 5 velas acesas no Santuário de Fátima) e voltamos ao hostel para recuperar as horas mal dormidas da noite anterior. Antes do repouso, decidimos democraticamente, que íamos sair de Coimbra mais tarde do que o programado. E aproveitaríamos o pequeno-almoço incluído no preço da reserva.

 

Coimbra – Fátima (2.ª Etapa)

O dia acordou sereno. Apesar dos alertas de mau tempo, as nuvens no céu, não anteviam chuva. Saímos de Coimbra pela Ponte de Santa Clara depois do primeiro café do dia.

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Depois do “Portugal dos Pequenitos” sabíamos que tínhamos pela frente a primeira prova de montanha do dia. 200 D+ em 4 quilómetros desgastou num ápice o pequeno almoço. Seguimos de seguida por uma zona de monte até Cernache, onde cruzamos duas ou três vezes o IC2/N1 a estrada perigosa que os peregrinos utilizam de forma teimosa para chegar a Fátima a pé.

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Em pouco menos de 20 quilómetros estávamos na freguesia de Condeixa-a-Velha (a 2 km de Condeixa-a-Nova) na Conímbriga (Ruínas de Conimbriga), uma das maiores povoações romanas de que há vestígios em Portugal. A paragem não foi longa. Seguimos caminho, naquele que seria o melhor e mais interessante troço desta aventura.

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Até Rabaçal foi sempre abrir por estradões empedrados seguidos de plantações de olivais. Nesta pequena freguesia do concelho de Penela decidimos parar no Café Bonito onde encontramos vários peregrinos estrangeiros a Caminho de Santiago de Compostela.

Tínhamos cerca de 40 quilómetros quando em Alvorge (concelho de Ansião) decidi encher o bidão numa torneira instalada num local mesmo antes de se iniciar um troço muito técnico. Dei um gole e surpreendo-me com uma água azeda e quimicamente irritante. Alertei os outros colegas que ali tinham enchido o bidão e segui para o centro da aldeia com o estômago embrulhado. Entretanto, às 11 horas da manhã discutíamos se parávamos para comer um frango no churrasco ali mesmo ou se seguíamos para Ansião.

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Votei na segunda opção e ganhei. Seguimos até Ansião com a barriga a dar horas e sem saber sequer o percurso que íamos encontrar até lá chegarmos. Em Junqueira num caminho rural fomos abrandados por um rebanho de ovelhas e por uma simpática senhora bastante idosa que nos saudou. Após algumas palavras de conversa, alegremente desviou os seus animais do caminho e seguimos viagem. Prometemos acender uma vela por ela em Fátima, e cumprimos.

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Chegados a Ansião tínhamos 50 quilómetros e uma fome imensa no corpo. Na primeira churrasqueira abastecemo-nos de comida e fomos até ao Parque Verde do Nabão que ficava ali ao lado. Importante era comer e seguir viagem. O tempo não era um inimigo até porque o regresso estava planeado para o último comboio regional do dia, contudo a meteorologia ameaçava aguaceiros e as nuvens estavam cada vez mais escuras.

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Seguimos a viagem paralela ao Rio Nabão num trilho muito próximo. Esta fase do percurso foi sem dúvida um hino ao BTT e aquilo que gostamos de praticar. Nesta altura o Pedro aproveitou para furar numa bela descida. E o Gramaxo, na sua vez, aproveitou para estrear os tacos que tinha comprado propositadamente para esta viagem.

Por esta altura tínhamos cerca de 40 quilómetros para fazer. 20 até Fátima e outros tantos de Fátima até Seiça em Ourém. As pernas e o corpo acusavam o desgaste da aventura. Em Gondemaria paramos para comer as últimas barras energéticas das mochilas. O facto de não termos o track do percurso carregado no GPS permitiu-nos andar à descoberta, sem antecipações e sem estratégias.

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Chegamos a Fátima com o dever cumprido. Acendemos as velas e procuramos uns balneários para um duche (estavam fechados). Reforçamos o corpo e fizemo-nos à estrada até Ourém em busca da estação ou apeadeiro de Seiça.

O regresso a Famalicão foi feito comodamente nos comboios regionais da CP. Sem qualquer percalço, nem intransigência dos revisores da CP.

Para os entusiastas dos números e dos recordes deixamos alguns já de seguida:
180 + 120 = 300 quilómetros em números redondos; + de 4500 D+ mas parece ter sido muito mais; cerca de 16 horas a pedalar mas valeu pelos dois dias que tivemos fora da zona de conforto; muitas refeições em fast-food, churrasqueiras e todas as barras energéticas (que souberam a pouco); decisões democráticas e uma boa amizade; vontade de voltar a pedalar para bem já amanhã.

Desta aventura, fica um trajeto interessante principalmente na segunda etapa. Um troço cultural bem marcado que pode ser aproveitado pelo turismo de Portugal. Conhecemos gente simpática pelo caminho, em localidades de um Portugal interior, despovoado, mas cheio de histórias para contar. Prometemos voltar, com mais tempo para ouvir e falar.

Texto/Fotos: Edgar Costa

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